Segurança alimentar nas comunidades rurais de Moçambique: desafios, causas e caminhos para a resiliência
Nas comunidades rurais de Moçambique, produzir alimentos não significa necessariamente estar protegido contra a fome. Uma família pode cultivar milho, mandioca, feijão ou amendoim e, ainda assim, enfrentar meses de escassez, alimentação pouco diversificada e dificuldades para comprar outros alimentos. Choques climáticos, perdas agrícolas, pobreza, preços elevados, conflitos, acesso limitado aos mercados e fragilidades dos sistemas de produção ajudam a explicar esse paradoxo. Em 2026, a segurança alimentar continua a ser um dos grandes desafios do desenvolvimento rural moçambicano.
- o que significa realmente segurança alimentar;
- qual é a situação recente da insegurança alimentar em Moçambique;
- por que as famílias rurais são particularmente vulneráveis;
- como agricultura familiar, clima e pobreza estão relacionados;
- o papel das mulheres na produção e gestão dos alimentos;
- como perdas pós-colheita afectam a disponibilidade alimentar;
- por que produzir mais não resolve sozinho a insegurança alimentar;
- a relação entre alimentação, água, saneamento e nutrição;
- como tornar as comunidades rurais mais resilientes.
1. O que significa segurança alimentar?
A segurança alimentar é mais ampla do que simplesmente existir comida num determinado território.
A definição consolidada pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura estabelece que existe segurança alimentar quando todas as pessoas têm, em todos os momentos, acesso físico e económico a alimentos suficientes, seguros e nutritivos que satisfaçam as suas necessidades alimentares e preferências para uma vida activa e saudável (FAO, 2006).
Esta definição permite compreender quatro dimensões tradicionalmente utilizadas na análise da segurança alimentar:
- disponibilidade de alimentos;
- acesso físico e económico aos alimentos;
- utilização adequada dos alimentos e nutrientes;
- estabilidade dessas três dimensões ao longo do tempo.
Uma comunidade pode produzir alimentos suficientes durante a colheita e continuar insegura do ponto de vista alimentar se as famílias perderem rapidamente as reservas, não tiverem rendimento para comprar alimentos ou consumirem dietas nutricionalmente inadequadas durante parte do ano.
2. A insegurança alimentar continua elevada em Moçambique
Os dados mais recentes mostram que o problema permanece significativo. A análise da Classificação Integrada das Fases de Segurança Alimentar publicada em Setembro de 2026 estimou que, entre Julho e Setembro de 2026, aproximadamente 1,19 milhão de pessoas nos 46 distritos predominantemente produtivos analisados enfrentavam insegurança alimentar aguda em Fase 3 ou superior, isto é, situação de Crise ou pior (IPC, 2026).
Dessas pessoas, cerca de 1,1 milhão encontravam-se em Fase 3 e aproximadamente 81 mil em Fase 4, classificada como Emergência (IPC, 2026).
A análise do IPC projecta uma deterioração entre Outubro de 2026 e Março de 2027. Aproximadamente 1,84 milhão de pessoas nos distritos abrangidos pela análise poderão enfrentar insegurança alimentar aguda em Fase 3 ou superior, incluindo cerca de 254 mil pessoas em Emergência (IPC, 2026).
É importante interpretar estes números correctamente. Eles referem-se à população e aos distritos abrangidos pela análise específica do IPC e não devem ser tratados automaticamente como a prevalência de toda a população moçambicana.
3. Agricultura e segurança alimentar estão profundamente ligadas
Para muitas famílias rurais moçambicanas, agricultura não representa apenas uma actividade económica. A machamba funciona simultaneamente como fonte de alimentos, rendimento, sementes, emprego familiar e mecanismo de sobrevivência.
A FAO assinala que mais de 80% da população do país depende da agricultura, o que torna os choques sobre a produção agrícola particularmente importantes para a segurança alimentar e os meios de subsistência (FAO, 2026).
Quando uma família depende fortemente da própria produção, uma campanha agrícola desfavorável pode afectar simultaneamente duas dimensões: a quantidade de alimentos disponíveis em casa e o rendimento obtido pela venda da produção.
4. A agricultura familiar é particularmente vulnerável ao clima
Grande parte da agricultura moçambicana depende directamente das chuvas. Quando a precipitação começa tarde, termina cedo ou apresenta longos períodos de interrupção, a produtividade das culturas pode diminuir.
Por outro lado, precipitação excessiva, cheias e ciclones podem destruir culturas, sementes armazenadas, animais, estradas, sistemas de irrigação e outros activos produtivos.
A FAO informou em 2026 que comunidades agrícolas moçambicanas enfrentaram repetidamente ciclones, cheias e seca associada ao El Niño, com impactos sobre sistemas agrícolas e meios de subsistência rurais (FAO, 2026).
5. Uma única campanha perdida pode afectar todo o agregado familiar
As cheias ocorridas no sul de Moçambique no início de 2026 mostram como esse processo acontece.
Segundo a FAO, campos ficaram submersos quando algumas culturas estavam em fases importantes do seu desenvolvimento, afectando produtos como arroz, milho e cana-de-açúcar. Em determinadas famílias afectadas, a agricultura representava mais de metade e, em alguns casos, até três quartos do rendimento anual (FAO, 2026).
Perder a colheita, portanto, não significa apenas perder alimentos. Pode significar perder rendimento para comprar sabão, medicamentos, material escolar, sementes, roupa e outros produtos essenciais.
6. A insegurança alimentar não significa apenas fome
Uma família pode consumir alimentos diariamente e, ainda assim, apresentar insegurança alimentar.
Por exemplo, durante períodos difíceis, um agregado familiar pode manter a ingestão energética consumindo quase sempre alimentos básicos, mas reduzir frutas, hortaliças, leguminosas, produtos de origem animal ou outros alimentos nutritivos.
Por isso, quantidade e qualidade da alimentação precisam de ser avaliadas conjuntamente.
A segurança nutricional depende também de condições de saúde, água segura, saneamento, higiene e capacidade do organismo de utilizar adequadamente os nutrientes consumidos.
7. A sazonalidade ajuda a explicar a insegurança alimentar rural
A disponibilidade de alimentos numa família agrícola muda durante o ano. Depois da colheita, as reservas podem ser relativamente elevadas. Com o passar dos meses, o consumo doméstico, venda, perdas de armazenamento e outras necessidades reduzem os estoques.
Antes da colheita seguinte pode surgir a chamada época de escassez ou período de maior pressão alimentar.
É precisamente por isso que as análises de segurança alimentar distinguem períodos do ano. Uma família que apresenta consumo adequado logo depois da colheita pode enfrentar condições muito diferentes alguns meses depois.
8. O acesso económico é tão importante quanto a produção
Nem todos os alimentos consumidos nas zonas rurais são produzidos pela própria família.
Sal, óleo, açúcar, peixe, arroz, farinha, produtos processados e diversos outros alimentos podem ser adquiridos nos mercados.
Quando os preços sobem mais rapidamente do que os rendimentos, o acesso económico diminui.
A análise IPC publicada em Setembro de 2026 identificou os preços persistentemente elevados dos alimentos básicos, o aumento dos custos de combustível e transporte, a inflação e a redução do poder de compra entre os factores que restringiam o acesso das famílias aos alimentos (IPC, 2026).
9. A distância até ao mercado também importa
Para famílias localizadas longe de estradas principais, o problema não é apenas o preço do produto no mercado.
Custos de transporte, estradas degradadas e dificuldades de deslocação podem aumentar o custo efectivo dos alimentos e reduzir as oportunidades de venda da produção agrícola.
O isolamento também pode limitar o acesso a sementes melhoradas, fertilizantes, equipamentos, informação sobre preços e serviços de extensão rural.
10. O armazenamento é uma parte invisível da segurança alimentar
Produzir alimentos é apenas uma etapa. A produção precisa de permanecer disponível até ao momento do consumo ou da venda.
Armazenamento inadequado pode favorecer perdas provocadas por insectos, roedores, fungos, humidade e deterioração.
Quando parte da colheita é perdida depois de sair da machamba, a quantidade efectivamente disponível para a família diminui mesmo que a produção inicial tenha sido boa.
Melhorar secagem, armazenamento, conservação e processamento pode, portanto, contribuir directamente para prolongar a disponibilidade alimentar.
11. Diversificar culturas reduz riscos
Uma família que depende de uma única cultura fica particularmente exposta quando essa cultura falha.
A diversificação pode combinar, conforme as condições agroecológicas locais, cereais, leguminosas, raízes e tubérculos, hortaliças, fruteiras, criação de pequenos animais, pesca e outras actividades.
A lógica não consiste simplesmente em produzir o maior número possível de culturas. O objectivo é reduzir dependência, distribuir riscos e melhorar a disponibilidade de diferentes alimentos.
12. As mulheres ocupam uma posição central nos sistemas alimentares rurais
Nas comunidades rurais, as mulheres participam em múltiplas etapas do sistema alimentar: preparação da terra, sementeira, controlo de plantas infestantes, colheita, processamento, armazenamento, comercialização e preparação das refeições.
Além do trabalho produtivo, muitas mulheres assumem responsabilidades relacionadas com cuidados infantis, preparação dos alimentos e decisões quotidianas sobre a distribuição das refeições dentro do agregado familiar.
Por isso, aumentar o acesso das mulheres a conhecimento técnico, recursos produtivos, mercados, serviços financeiros e tecnologias agrícolas pode produzir efeitos que ultrapassam a própria parcela cultivada.
13. A gestão doméstica dos alimentos é parte da segurança alimentar
Duas famílias com níveis semelhantes de produção podem apresentar resultados alimentares diferentes dependendo de como armazenam, processam, distribuem e utilizam os alimentos ao longo do ano.
Planeamento das reservas, conservação de sementes, diversificação das refeições e utilização estratégica do rendimento obtido com a venda da produção podem influenciar a estabilidade alimentar do agregado.
Isto mostra que a segurança alimentar não depende exclusivamente da quantidade produzida na machamba. Também depende da gestão dos recursos disponíveis.
14. Educação nutricional pode melhorar a utilização dos alimentos
Diversidade agrícola e diversidade alimentar estão relacionadas, mas não são exactamente a mesma coisa.
Uma família pode produzir vários alimentos e vender grande parte dos produtos mais nutritivos para satisfazer outras necessidades. Também pode existir produção diversificada sem conhecimento suficiente sobre alimentação infantil, combinação de grupos alimentares, higiene ou preparação adequada dos alimentos.
Por isso, intervenções de produção agrícola podem ser fortalecidas quando combinadas com educação alimentar e nutricional.
15. Crianças são particularmente afectadas pela má nutrição
A insegurança alimentar pode contribuir para dietas insuficientes ou pouco diversificadas, mas a malnutrição possui múltiplas causas.
Doenças infecciosas, práticas inadequadas de alimentação infantil, água contaminada, saneamento deficiente, acesso limitado aos serviços de saúde e insegurança alimentar podem interagir.
A análise IPC de malnutrição publicada em Setembro de 2026 estimou que, nos 24 distritos moçambicanos afectados por choques analisados, aproximadamente 103 600 crianças dos 6 aos 59 meses e 11 100 mulheres grávidas e lactantes sofriam ou poderiam vir a sofrer de malnutrição aguda entre Abril de 2026 e Março de 2027 (IPC, 2026).
16. Água segura e saneamento fazem parte da solução
Uma criança pode consumir alimentos nutritivos e, ao mesmo tempo, sofrer episódios frequentes de diarreia associados a água contaminada ou condições inadequadas de saneamento.
As doenças podem diminuir a ingestão de alimentos, prejudicar a absorção de nutrientes e aumentar as necessidades metabólicas.
Por isso, programas de segurança alimentar e nutrição tornam-se mais completos quando articulados com água, saneamento, higiene e serviços de saúde.
17. Conflitos podem destruir sistemas alimentares locais
A insegurança no norte de Moçambique demonstra que segurança alimentar também depende de paz e estabilidade.
A análise IPC de Setembro de 2026 indicou que conflitos em Cabo Delgado e no norte de Nampula deslocaram mais de 27 mil pessoas durante o período analisado, afectando meios de subsistência, acesso aos mercados e serviços essenciais (IPC, 2026).
Quando uma família abandona a sua comunidade, pode perder acesso à terra, culturas, animais, ferramentas, reservas alimentares e redes locais de apoio.
18. Choques sucessivos tornam a recuperação mais difícil
Uma comunidade pode recuperar de uma seca isolada. O problema torna-se mais grave quando a seca é seguida por ciclone, cheia, aumento de preços ou conflito antes de as famílias recuperarem os activos perdidos.
A análise IPC de 2026 identificou uma combinação de cheias, ciclone, calor prolongado, conflito, deslocamento e preços elevados entre os factores que afectaram a segurança alimentar nos distritos analisados (IPC, 2026).
A repetição dos choques pode obrigar famílias a vender animais, consumir sementes destinadas à próxima campanha, reduzir refeições ou abandonar investimentos produtivos.
19. Mudanças climáticas aumentam a necessidade de resiliência
Para uma agricultura fortemente dependente das chuvas, alterações na frequência e intensidade de secas, cheias, ciclones e ondas de calor representam riscos significativos.
Em Julho de 2026, FAO e Programa Mundial de Alimentação alertaram para os riscos de um novo episódio de El Niño durante a campanha 2026/27, com potencial para produzir condições mais secas no sul e centro e riscos de cheias no norte do país (FAO, 2026).
A resposta de longo prazo exige mais do que assistência depois do desastre. É necessário aumentar a capacidade das famílias de antecipar, absorver e recuperar de choques.
20. Segurança alimentar exige sistemas agrícolas resilientes
Resiliência significa capacidade de continuar a funcionar e recuperar quando ocorre um choque.
No contexto rural, isso pode envolver:
- culturas adaptadas às condições agroecológicas locais;
- diversificação da produção;
- acesso a sementes de qualidade;
- conservação do solo e da água;
- irrigação onde for técnica e economicamente viável;
- melhor armazenamento;
- criação de animais;
- acesso à informação meteorológica;
- fontes diversificadas de rendimento;
- associações e cooperativas de produtores;
- acesso a mercados;
- protecção social para famílias vulneráveis.
21. Irrigação pode reduzir a dependência das chuvas
Sistemas de irrigação podem permitir produção durante períodos secos, aumentar a regularidade da produção e facilitar o cultivo de hortaliças e outras culturas.
No entanto, irrigação não é uma solução universal. Requer disponibilidade sustentável de água, investimento, manutenção, energia quando necessária e gestão adequada para evitar desperdício, degradação do solo ou conflitos pelo recurso.
A escolha das tecnologias deve considerar as condições locais e a capacidade das comunidades para mantê-las.
22. O acesso às sementes influencia a recuperação
Depois de uma cheia, seca ou ciclone, fornecer alimentos pode responder à necessidade imediata, mas as famílias agrícolas também precisam recuperar a capacidade de produzir.
Sementes, ferramentas, animais, assistência técnica e acesso à terra podem ser determinantes para a campanha seguinte.
A FAO tem destacado precisamente a restauração da produção e a diversificação dos meios de subsistência como componentes importantes da resposta à insegurança alimentar em Moçambique (FAO, 2026).
23. Produzir excedentes só ajuda se houver mercado
Aumentar a produtividade pode melhorar a segurança alimentar, mas o benefício económico depende também da possibilidade de vender o excedente em condições favoráveis.
Quando os produtores enfrentam estradas precárias, custos elevados de transporte, pouca informação sobre preços ou reduzido poder de negociação, podem vender a produção por preços baixos.
Melhorar estradas rurais, armazenamento colectivo, informação de mercado, associações e ligações entre produtores e compradores pode aumentar o valor que permanece nas comunidades.
24. Cooperativas podem aumentar o poder dos pequenos produtores
Um agricultor individual pode produzir uma quantidade demasiado pequena para negociar directamente com grandes compradores.
A organização colectiva pode permitir juntar produção, comprar insumos em maior escala, partilhar equipamentos, melhorar armazenamento e negociar condições de venda.
Contudo, cooperativas eficazes dependem de boa governação, transparência, gestão e participação real dos membros.
25. Segurança alimentar não significa apenas aumentar a produção
Uma política exclusivamente orientada para toneladas produzidas pode ignorar questões essenciais.
Imagine uma comunidade que duplica a produção de milho, mas continua sem água segura, perde parte da colheita no armazenamento, vende o restante a preços baixos e possui pouco acesso a alimentos ricos em proteínas e micronutrientes.
A produção aumentou, mas vários componentes da segurança alimentar continuam frágeis.
- quem produziu?
- quem tem acesso à produção?
- quanto se perdeu?
- quanto foi vendido?
- qual rendimento foi obtido?
- que alimentos a família consome?
- quem dentro da família recebe esses alimentos?
- o sistema consegue resistir à próxima seca, cheia ou subida de preços?
26. Segurança alimentar e nutrição devem caminhar juntas
Em Setembro de 2026, Moçambique avançou no desenvolvimento de directrizes alimentares nacionais baseadas nos sistemas alimentares, num processo liderado pelo Governo através do SETSAN e do Ministério da Saúde, com apoio técnico da FAO (FAO, 2026).
Esta abordagem procura relacionar alimentação saudável com sistemas agroalimentares sustentáveis e resilientes.
É uma mudança importante porque a questão deixa de ser apenas disponibilizar calorias e passa a incluir a qualidade nutricional da alimentação.
27. O que pode fortalecer a segurança alimentar nas comunidades rurais?
| Desafio | Consequência | Possíveis respostas |
|---|---|---|
| Dependência das chuvas | Produção vulnerável a secas e irregularidade da precipitação. | Irrigação adequada, conservação da água, variedades adaptadas e informação climática. |
| Baixa diversificação | Maior risco quando uma cultura falha. | Diversificação agrícola e dos meios de subsistência. |
| Perdas pós-colheita | Redução das reservas e do rendimento. | Melhor secagem, armazenamento, conservação e processamento. |
| Preços elevados | Redução do acesso económico aos alimentos. | Mercados eficientes, rendimento, protecção social e produção local. |
| Isolamento dos mercados | Custos elevados e menor poder de negociação. | Infra-estruturas rurais, associações e informação de mercado. |
| Dietas pouco diversificadas | Maior risco de inadequação nutricional. | Produção diversificada e educação nutricional. |
| Choques climáticos | Perdas de culturas e activos. | Agricultura resiliente, sistemas de alerta e acção antecipatória. |
| Conflitos e deslocamentos | Perda de terra, produção e acesso aos mercados. | Protecção, assistência alimentar e recuperação dos meios de subsistência. |
| Acesso desigual a recursos | Limitação da capacidade produtiva de determinados grupos. | Maior inclusão de mulheres e pequenos produtores nos serviços e recursos agrícolas. |
28. O papel da investigação científica
Intervenções de segurança alimentar precisam de ser avaliadas com dados.
Investigadores podem analisar produtividade, diversidade alimentar, rendimento, armazenamento, consumo doméstico, acesso aos mercados, estado nutricional e estratégias de adaptação.
Também é possível investigar estatisticamente relações entre estratégias familiares e níveis de insegurança alimentar.
Por exemplo, estudos podem testar se famílias com maior diversidade de culturas, melhores práticas de armazenamento ou maior conhecimento nutricional apresentam menor probabilidade de insegurança alimentar, controlando simultaneamente outros factores socioeconómicos.
29. Segurança alimentar deve ser analisada ao nível da família
Os dados nacionais são indispensáveis para políticas públicas, mas médias nacionais podem esconder diferenças entre províncias, distritos, comunidades e agregados familiares.
Mesmo dentro da mesma aldeia, duas famílias podem apresentar situações muito diferentes devido ao tamanho da machamba, rendimento, número de dependentes, acesso à água, diversidade de culturas, animais, armazenamento ou fontes alternativas de rendimento.
É por isso que estudos locais são importantes para complementar as análises nacionais.
30. Nampula também merece atenção especial
A segurança alimentar no norte de Moçambique deve ser analisada considerando simultaneamente produção agrícola, pobreza, acesso aos mercados, choques climáticos e, em determinadas áreas, deslocamentos associados à insegurança.
A análise IPC publicada em Setembro de 2026 refere especificamente deslocamentos provocados pelo conflito em Cabo Delgado e no norte de Nampula como um dos factores que perturbaram meios de subsistência e acesso a mercados e serviços (IPC, 2026).
Entretanto, as condições não são uniformes em toda a província. Estudos distritais e comunitários continuam necessários para compreender as estratégias e vulnerabilidades específicas de cada localidade.
31. Da assistência alimentar à resiliência
Em situações de crise, assistência alimentar pode ser indispensável para proteger vidas.
Mas reduzir a insegurança alimentar a longo prazo exige também recuperar e fortalecer os meios de subsistência.
A análise IPC de 2026 recomenda, entre outras medidas, apoio à produção agrícola, pecuária e pesca, disponibilidade de insumos nos mercados, assistência técnica contra pragas e doenças, melhor acesso aos mercados e medidas de adaptação e resiliência (IPC, 2026).
Perguntas frequentes
O que é segurança alimentar?
É uma condição na qual as pessoas dispõem de acesso físico e económico, de forma estável, a alimentos suficientes, seguros e nutritivos para satisfazer as suas necessidades alimentares e manter uma vida activa e saudável.
Insegurança alimentar significa necessariamente fome?
Não. A insegurança alimentar apresenta diferentes níveis de gravidade. Pode manifestar-se inicialmente através da redução da qualidade e diversidade da alimentação e, em situações mais graves, provocar redução da quantidade consumida e grandes défices alimentares.
Por que uma família agricultora pode sofrer insegurança alimentar?
Porque produzir alimentos não garante estabilidade durante todo o ano. Secas, cheias, perdas pós-colheita, preços, pobreza, tamanho do agregado, baixa produtividade, doença e outras condições podem reduzir a disponibilidade ou o acesso aos alimentos.
Qual é a situação actual em Moçambique?
A análise IPC publicada em Setembro de 2026 estimou aproximadamente 1,19 milhão de pessoas em Fase 3 ou superior entre Julho e Setembro de 2026 nos 46 distritos produtivos analisados. Para Outubro de 2026 a Março de 2027, a projecção sobe para aproximadamente 1,84 milhão (IPC, 2026).
As mulheres são importantes para a segurança alimentar rural?
Sim. Em muitas comunidades, as mulheres participam directamente na produção, processamento, armazenamento, preparação dos alimentos e gestão alimentar doméstica. Por isso, o seu acesso a recursos produtivos, conhecimento, mercados e rendimento possui relevância para os sistemas alimentares.
Aumentar a produção resolve a insegurança alimentar?
Pode contribuir significativamente, mas não é suficiente isoladamente. Também são importantes armazenamento, rendimento, mercados, preços, diversidade da dieta, água, saneamento, saúde e estabilidade da produção.
Como as mudanças climáticas afectam a segurança alimentar?
Secas, cheias, ciclones, temperaturas elevadas e alterações nos padrões de precipitação podem afectar culturas, animais, água e rendimento agrícola. O efeito concreto varia entre regiões e sistemas produtivos.
Conclusão
A segurança alimentar nas comunidades rurais de Moçambique é determinada por uma rede de factores que vai muito além da quantidade de alimentos produzida numa campanha agrícola.
A agricultura familiar continua fundamental para a sobrevivência de milhões de pessoas, mas permanece exposta à irregularidade das chuvas, ciclones, cheias, secas, perdas pós-colheita, dificuldades de acesso aos mercados, preços elevados e outros choques.
Os dados mais recentes do IPC mostram que a insegurança alimentar aguda continua significativa. Entre Julho e Setembro de 2026, aproximadamente 1,19 milhão de pessoas nos 46 distritos produtivos analisados enfrentavam Crise ou condições piores. Para a época de escassez de Outubro de 2026 a Março de 2027, a projecção é de aproximadamente 1,84 milhão (IPC, 2026).
Estes números também demonstram por que a resposta precisa de ultrapassar a assistência emergencial. Fortalecer a segurança alimentar significa aumentar a capacidade das famílias para resistir ao próximo choque.
Isso envolve agricultura mais resiliente, diversificação das culturas, melhor armazenamento, acesso a sementes, água e mercados, educação nutricional, protecção social, infra-estruturas rurais, valorização do papel das mulheres e sistemas de informação capazes de antecipar crises.
Em última análise, segurança alimentar significa garantir que uma família não esteja protegida da fome apenas no mês da colheita, mas que tenha capacidade de manter uma alimentação suficiente e nutricionalmente adequada durante todo o ano e ao longo das gerações.
Referências
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- Food and Agriculture Organization of the United Nations. (2026). Mozambique: Emergency and resilience. FAO. Consultar fonte .
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Créditos das imagens
- Food and Agriculture Organization of the United Nations. Fotografia de agricultoras durante a colheita de milho em Moçambique. FAO . Consulte a publicação original para atribuição e termos de reutilização.
- Food for Transformation / DGRV. Fotografia de agricultoras numa cultura de milho em Moçambique. Fonte da imagem . Consulte a fonte original para os créditos e condições de reutilização.
- Australian Centre for International Agricultural Research, ACIAR. Fotografia de agricultores em Angónia, Moçambique. Fonte da imagem . Consulte a página original para os créditos e condições de reutilização.