Como as alterações climáticas estão a mudar as doenças

Como as alterações climáticas estão a mudar as doenças

Como o aquecimento global, as alterações da precipitação, as inundações, as secas e os fenómenos extremos estão a modificar o risco de doenças infecciosas e não infecciosas
Resumo: As alterações climáticas estão a modificar algumas das condições ecológicas, ambientais e sociais que determinam o risco de doença. O aumento da temperatura, as alterações na precipitação, as inundações, as secas, as ondas de calor e outros fenómenos climáticos podem afectar vectores, agentes patogénicos, reservatórios animais, qualidade da água, segurança alimentar e funcionamento dos sistemas de saúde (IPCC, 2022; Mora et al., 2022). Uma análise abrangente da literatura científica encontrou 3 213 casos empíricos relacionados com doenças humanas e riscos climáticos. Foram identificadas 286 doenças patogénicas, das quais 277 apresentavam evidências de agravamento por pelo menos um risco climático. Entre 375 doenças infecciosas analisadas, 218 (58%) tinham sido agravadas por algum factor climático em pelo menos um contexto estudado (Mora et al., 2022). Estes resultados não significam que 58% das doenças infecciosas estejam actualmente a aumentar devido exclusivamente às alterações climáticas. Significam que existem evidências empíricas de que factores climáticos podem agravar determinadas doenças em determinados contextos.
Palavras-chave: alterações climáticas; doenças infecciosas; malária; dengue; cólera; vectores; mosquitos; saúde pública; aquecimento global; Moçambique; epidemiologia; saúde ambiental; One Health.
Climate Change Performance Index 2023 — mapa mundial do desempenho dos países perante as alterações climáticas
Climate Change Performance Index (CCPI). Mapa mundial que apresenta a classificação dos países segundo o desempenho climático utilizado pelo índice.
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By M.Bitton — Own work based on: Climate Change Performance Index — Ranking (14 November 2022), retrieved on 31 August 2023, and an optimized version of File:BlankMap-World.svg .

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1. Introdução

Durante muito tempo, clima e doenças foram estudados como fenómenos relativamente separados. Actualmente, a epidemiologia, a climatologia, a ecologia e as ciências ambientais mostram que existe uma ligação profunda entre eles. A temperatura, a precipitação, a humidade e outros elementos ambientais podem modificar as condições em que vectores, agentes patogénicos e reservatórios conseguem sobreviver e transmitir doenças (IPCC, 2022).

As alterações climáticas não significam necessariamente o aparecimento de novos agentes infecciosos. Muitas vezes, o que muda é o ambiente no qual agentes já existentes conseguem sobreviver, reproduzir-se ou ser transmitidos. Assim, uma doença pode tornar-se mais provável numa determinada região, mudar a sua sazonalidade ou afectar populações anteriormente menos expostas (Mora et al., 2022).

Uma ideia fundamental: As alterações climáticas não determinam, por si só, quem ficará doente. Elas modificam as condições de risco sobre as quais actuam factores biológicos, ambientais, sociais e económicos.

2. Como o clima altera as doenças?

Uma forma simples de compreender esta relação é imaginar uma cadeia: clima → ambiente → vector/agente patogénico → exposição → transmissão → doença.

Quando a temperatura aumenta, por exemplo, podem ocorrer alterações na sobrevivência, reprodução e distribuição de determinados vectores. Alterações na precipitação podem criar ou eliminar criadouros de mosquitos. Inundações podem contaminar fontes de água. Secas podem reduzir o acesso à água e agravar a insegurança alimentar (IPCC, 2022).

O efeito climático também depende das características locais. A mesma alteração de temperatura pode produzir consequências diferentes em duas regiões com diferentes altitudes, cobertura vegetal, sistemas de saneamento, densidade populacional ou capacidade de controlo vectorial.

Por isso, a pergunta cientificamente correcta não é simplesmente: "As alterações climáticas aumentam as doenças?" É necessário perguntar: qual doença, em que população, através de qual mecanismo e sob quais condições climáticas?

3. A dimensão global do problema

Uma das análises mais abrangentes sobre a relação entre alterações climáticas e doenças humanas foi publicada por Mora et al. (2022) na revista Nature Climate Change.

Os investigadores analisaram mais de 77 000 títulos científicos e identificaram 3 213 casos empíricos em que riscos climáticos estavam relacionados com doenças patogénicas humanas (Mora et al., 2022).

No conjunto analisado foram identificadas 286 doenças patogénicas humanas. Destas, 277 apresentavam evidências de agravamento por pelo menos um risco climático. Entre 375 doenças infecciosas, 218 (58%) tinham sido agravadas por algum factor climático em pelo menos um contexto estudado (Mora et al., 2022).

Como interpretar os 58%?

Este valor não significa que 58% das doenças infecciosas estejam actualmente a aumentar por causa das alterações climáticas. O estudo procurou identificar exemplos empíricos de agravamento associado a riscos climáticos.

O trabalho identificou ainda 1 006 vias distintas através das quais riscos climáticos poderiam influenciar doenças, demonstrando que a relação entre clima e saúde é extremamente complexa (Mora et al., 2022).

4. Mosquitos, vectores e doenças

Os mosquitos são particularmente importantes porque várias doenças dependem deles para completar o ciclo de transmissão.

Temperatura e precipitação podem modificar a abundância, actividade e distribuição de determinados vectores. As condições térmicas também podem afectar o desenvolvimento de agentes infecciosos dentro do vector (IPCC, 2022).

Contudo, a relação não é necessariamente linear. Um aumento da temperatura pode inicialmente favorecer determinados vectores, mas temperaturas excessivamente elevadas podem diminuir a sobrevivência de algumas espécies.

Além disso, a transmissão depende de factores como disponibilidade de água, vegetação, urbanização, habitação, comportamento humano, controlo vectorial e acesso aos cuidados de saúde.

5. Malária e alterações climáticas

A malária é um exemplo particularmente importante da interacção entre clima, ecologia e doença. A transmissão depende de parasitas do género Plasmodium, mosquitos vectores e condições ambientais que permitem a manutenção do ciclo de transmissão.

Temperatura e precipitação podem afectar a disponibilidade de criadouros, a sobrevivência dos mosquitos e determinadas fases do desenvolvimento do parasita. Por isso, alterações climáticas podem modificar a intensidade e a sazonalidade da transmissão (IPCC, 2022).

No entanto, o clima é apenas um dos determinantes. Uso de redes mosquiteiras, pulverização, qualidade das habitações, diagnóstico, tratamento, imunidade, resistência a insecticidas e condições socioeconómicas também influenciam a incidência.

Projecções para África

Um estudo publicado em 2026 utilizou dados de aproximadamente 25 anos sobre clima, malária, controlo da doença, condições socioeconómicas e fenómenos meteorológicos extremos para modelar possíveis alterações futuras da carga de malária em África.

Sob o cenário climático SSP2-4.5, mantendo os níveis actuais de controlo, o modelo estimou para o período 2024–2050 aproximadamente 123 milhões de casos adicionais de malária e cerca de 532 000 mortes adicionais. O modelo atribuiu aos fenómenos meteorológicos extremos aproximadamente 79% dos casos adicionais e 93% das mortes adicionais neste cenário (Symons et al., 2026).

Importante: Estes valores são projecções de modelos, não previsões inevitáveis. Alterações no controlo vectorial, tratamento, desenvolvimento socioeconómico e trajectória das emissões podem alterar substancialmente os resultados.

6. Dengue

A dengue é outra doença fortemente dependente da ecologia dos mosquitos. O principal vector urbano é o Aedes aegypti, embora outras espécies possam participar na transmissão.

A Organização Mundial da Saúde registou um aumento extraordinário dos casos de dengue reportados, de cerca de 505 430 casos em 2000 para aproximadamente 14,6 milhões em 2024 (WHO, 2025).

O aumento global da dengue não pode ser atribuído exclusivamente às alterações climáticas. Urbanização, mobilidade populacional, distribuição dos vectores, vigilância epidemiológica e capacidade dos sistemas de saúde também desempenham papéis importantes.

O IPCC conclui que alterações climáticas podem favorecer a expansão geográfica e temporal de condições adequadas para transmissão de dengue em determinadas regiões, incluindo partes da África subsaariana (IPCC, 2022).

7. Cólera, água e inundações

Nem todas as doenças sensíveis ao clima dependem de vectores. A água constitui outro importante elo entre ambiente e saúde.

Chuvas intensas e inundações podem contaminar sistemas de abastecimento de água com material fecal. Quando sistemas de saneamento são destruídos ou sobrecarregados, aumenta o risco de exposição a agentes causadores de doenças diarreicas, incluindo Vibrio cholerae (IPCC, 2022).

As alterações climáticas podem, portanto, actuar através de uma cadeia indirecta: evento extremo → danos no saneamento → contaminação da água → maior exposição → doença.

Este mecanismo é particularmente relevante em regiões onde o acesso à água potável e ao saneamento ainda é limitado.

8. Secas, alimentos e doenças

As secas podem afectar a saúde de forma menos imediata do que as inundações, mas os seus efeitos podem ser prolongados.

A redução da disponibilidade de água pode dificultar a higiene, a limpeza dos alimentos e o saneamento. Ao mesmo tempo, a redução da produção agrícola pode aumentar a insegurança alimentar e a vulnerabilidade nutricional.

Assim, uma seca prolongada pode produzir uma cadeia de efeitos: menos água → menor capacidade de higiene → maior exposição a agentes infecciosos, enquanto menor produção alimentar → insegurança alimentar → maior vulnerabilidade.

A magnitude destes efeitos depende da capacidade das comunidades para armazenar água, manter sistemas agrícolas e garantir serviços essenciais (IPCC, 2022).

9. Calor extremo e doenças não infecciosas

As alterações climáticas também afectam doenças que não são causadas por microrganismos.

O calor extremo aumenta o stress fisiológico sobre o organismo e pode agravar doenças cardiovasculares, respiratórias, metabólicas e renais. Pessoas idosas, crianças, trabalhadores expostos ao calor e pessoas com determinadas doenças crónicas podem apresentar maior vulnerabilidade (WHO, 2026).

Segundo estimativas da Organização Mundial da Saúde, a mortalidade relacionada com o calor entre pessoas com mais de 65 anos aumentou aproximadamente 85% entre os períodos 2000–2004 e 2017–2021 (WHO, 2026).

O impacto climático não é apenas infeccioso. O aquecimento pode aumentar directamente o stress fisiológico e agravar doenças cardiovasculares, respiratórias, renais e outras condições de saúde.

10. Doenças respiratórias

A relação entre clima e saúde respiratória ocorre através de várias vias. Temperaturas extremas, incêndios, poluição atmosférica, alterações nos alergénios e determinados fenómenos meteorológicos podem modificar a exposição das populações.

As alterações climáticas também podem alterar condições favoráveis à formação de determinados poluentes atmosféricos. Por isso, os efeitos respiratórios devem ser analisados conjuntamente com qualidade do ar, urbanização e fontes locais de poluição (IPCC, 2022).

11. Saúde mental

Os impactos climáticos não terminam nas doenças físicas. Secas, inundações, ciclones, perdas materiais, deslocamentos e insegurança económica podem afectar a saúde mental.

Uma revisão sistemática publicada em 2024 incluiu 35 estudos e 45 667 participantes e encontrou associações entre eco-ansiedade e indicadores de sofrimento psicológico, incluindo ansiedade, depressão e stress (Cosh et al., 2024).

Outra revisão sistemática, que analisou 57 estudos sobre efeitos de alterações climáticas de evolução lenta, encontrou evidências de impactos relevantes sobre a saúde mental (Burrows et al., 2024).

A saúde mental deve fazer parte da preparação para desastres climáticos, da resposta humanitária e das políticas de adaptação.

12. Zoonoses e abordagem One Health

As alterações ambientais também podem modificar o risco de doenças zoonóticas, isto é, doenças que envolvem transmissão entre animais e seres humanos.

Alterações nos habitats, perda de biodiversidade, mudanças na distribuição de animais e vectores e aumento do contacto entre humanos e reservatórios animais podem modificar oportunidades de transmissão.

Por essa razão, a prevenção não deve considerar apenas a saúde humana. É necessário integrar saúde humana, saúde animal e saúde ambiental.

Esta abordagem integrada é conhecida como One Health e é particularmente importante num cenário de alterações ambientais rápidas.

13. Nem todas as doenças aumentam

É cientificamente incorrecto afirmar que "as alterações climáticas aumentam todas as doenças".

Algumas doenças podem aumentar, outras podem diminuir e outras podem apresentar alterações pouco claras. O resultado depende da interacção entre temperatura, precipitação, altitude, ecologia, comportamento humano, controlo vectorial e condições socioeconómicas (IPCC, 2022).

Mesmo para a mesma doença, o efeito pode ser diferente entre regiões. Uma mudança climática pode aumentar a transmissão numa determinada área e reduzi-la noutra se as condições ultrapassarem os limites ecológicos favoráveis ao vector.

14. O caso de Moçambique

Moçambique apresenta uma combinação particularmente importante de exposição a fenómenos climáticos extremos, vulnerabilidade socioeconómica e elevada carga de doenças sensíveis ao ambiente.

Ciclones, cheias, secas e alterações na disponibilidade de água podem afectar simultaneamente diferentes determinantes da saúde: habitação, saneamento, alimentação, mobilidade populacional e funcionamento dos serviços de saúde.

Neste contexto, doenças como malária e cólera merecem atenção especial, porque os seus ciclos de transmissão podem ser influenciados por condições ambientais e climáticas.

A investigação realizada dentro do próprio país é particularmente importante porque os resultados obtidos noutras regiões do mundo não podem ser automaticamente aplicados à realidade moçambicana.

15. Malária em Moçambique

A malária constitui uma das principais doenças infecciosas de importância para a saúde pública em Moçambique.

Armando et al. (2025) analisaram dados de incidência de malária entre 2001 e 2018, combinando-os com indicadores climáticos para desenvolver modelos espaço-temporais de previsão. O estudo demonstrou que variáveis climáticas podem contribuir para explicar e prever a distribuição espacial e temporal da doença em Moçambique (Armando et al., 2025).

O trabalho é particularmente relevante porque demonstra a possibilidade de utilizar informação climática para apoiar sistemas de alerta precoce da malária.

Evidência recente de Tete

Mussafo et al. (2026) analisaram dados de rotina de 2016 a 2022 em 15 distritos da província de Tete, utilizando modelação espaço-temporal bayesiana. Os autores encontraram associações significativas entre factores climáticos e a dinâmica da incidência de malária, com a precipitação a surgir como predictor relevante (Mussafo et al., 2026).

Nível de evidência: Evidência observacional e de modelação espaço-temporal. Estes estudos apoiam a existência de uma relação entre variabilidade climática e dinâmica da malária, mas não demonstram que o clima seja o único determinante da incidência.

16. Ciclone Idai e risco de malária

Os efeitos de um evento climático extremo podem continuar depois de o fenómeno meteorológico terminar.

O Ciclone Idai atingiu Moçambique em 2019 e provocou danos extensos em habitações e infra-estruturas. Um estudo comunitário realizado em Sussundenga, província de Manica, investigou a relação entre os danos persistentes nas habitações e o risco de malária.

Os investigadores encontraram uma associação entre danos habitacionais prolongados e maior risco de malária, sugerindo que condições precárias de habitação após o ciclone podem aumentar a exposição aos vectores (Searle et al., 2023).

Mas atenção à causalidade: O estudo demonstra uma associação. Não significa que o Ciclone Idai tenha causado directamente todos os casos de malária observados. Deslocamento populacional, ambiente, acesso aos cuidados de saúde, habitação e outros factores também podem ter contribuído.

17. Cólera em Moçambique

A cólera é particularmente sensível às condições de água, saneamento e higiene. Eventos extremos podem aumentar o risco quando provocam contaminação de fontes de água ou interrompem os sistemas de abastecimento e saneamento.

No contexto moçambicano, esta relação torna-se especialmente importante em comunidades afectadas por cheias, ciclones, deslocamento populacional e acesso limitado a água segura.

Estudos realizados em comunidades vulneráveis de Cabo Delgado investigaram factores associados à cólera e à diarreia aquosa aguda, mostrando a importância dos determinantes ambientais e sociais na vulnerabilidade a estas doenças (Segala et al., 2025).

A prevenção exige, portanto, mais do que tratamento médico. É necessário fortalecer água potável, saneamento, higiene, vigilância epidemiológica e capacidade de resposta a surtos.

18. Qual é a força da evidência?

Nem todos os estudos científicos fornecem o mesmo tipo de evidência. É fundamental distinguir entre estudos observacionais, revisões sistemáticas, modelos epidemiológicos e projecções climáticas.

Tema Tipo de evidência Principal resultado Nível
Doenças e clima Revisão de evidências empíricas 277 de 286 doenças analisadas apresentaram evidências de agravamento por pelo menos um risco climático. Alta
Malária em Moçambique Modelação espaço-temporal Variáveis climáticas podem contribuir para explicar a distribuição e evolução temporal da malária. Moderada
Malária em Tete Modelo bayesiano observacional Factores climáticos apresentaram associações significativas com a dinâmica da incidência. Moderada
Ciclone Idai Estudo observacional comunitário Danos persistentes nas habitações foram associados a maior risco de malária. Moderada
Dengue Evidência epidemiológica + avaliação climática O clima influencia condições de transmissão, juntamente com urbanização, mobilidade e controlo vectorial. Alta
Malária futura em África Modelação climática e epidemiológica Projecção de aumento da carga sob determinadas condições climáticas e de controlo. Moderada

19. Limitações e incertezas

A principal dificuldade científica consiste em separar o efeito das alterações climáticas de todos os outros factores que influenciam a saúde.

Por exemplo, uma região pode apresentar aumento da incidência de malária simultaneamente com aumento da temperatura. Isso não prova, por si só, que o aquecimento seja a causa principal.

Mudanças no uso de mosquiteiros, resistência a insecticidas, migração, diagnóstico, tratamento, urbanização e comportamento da população também podem alterar a incidência.

Por isso, estudos de atribuição climática procuram responder a uma questão mais específica: quanto do risco observado pode ser atribuído às alterações climáticas antropogénicas?

Esta questão é cientificamente mais complexa do que simplesmente identificar uma correlação entre temperatura e doença.

20. O que pode ser feito?

Se o clima influencia doenças através de múltiplos mecanismos, a resposta também precisa de ser integrada.

1. Reforçar a vigilância epidemiológica

Sistemas de vigilância podem integrar dados meteorológicos, ambientais e epidemiológicos para identificar alterações anormais na transmissão antes de grandes surtos.

2. Desenvolver sistemas de alerta precoce

Modelos climáticos e epidemiológicos podem ajudar a antecipar períodos de maior risco de determinadas doenças, permitindo preparar medicamentos, equipas, campanhas de prevenção e recursos laboratoriais.

3. Melhorar água, saneamento e higiene

Infra-estruturas resilientes podem reduzir o impacto de inundações, secas e interrupções do abastecimento de água.

4. Reforçar o controlo vectorial

A vigilância de mosquitos e outros vectores deve acompanhar as alterações ambientais e climáticas.

5. Investir em investigação local

Moçambique necessita de mais estudos que combinem dados climáticos, epidemiológicos, ambientais e socioeconómicos a escalas provincial, distrital e comunitária.

6. Adoptar a abordagem One Health

A vigilância de doenças humanas deve ser integrada com a saúde animal e a monitorização ambiental.

7. Preparar os serviços de saúde para eventos extremos

Hospitais e centros de saúde precisam de planos de continuidade operacional para períodos de ciclones, cheias, secas e ondas de calor.

21. Conclusão

As alterações climáticas estão a modificar algumas das condições ambientais que determinam o risco de doenças. No entanto, a ciência não sustenta uma explicação simplista segundo a qual "o planeta aquece e todas as doenças aumentam".

Temperatura, precipitação, inundações, secas, calor extremo e outros fenómenos podem alterar vectores, agentes patogénicos, água, alimentos, habitação e funcionamento dos sistemas de saúde. O resultado depende da interacção entre clima, ecologia, comportamento humano e condições sociais (IPCC, 2022; Mora et al., 2022).

Em Moçambique, estudos recentes já demonstraram associações entre variáveis climáticas e a dinâmica da malária e identificaram relações entre danos provocados por fenómenos extremos e risco de doença (Armando et al., 2025; Mussafo et al., 2026; Searle et al., 2023).

O grande desafio para as próximas décadas será transformar este conhecimento em sistemas de vigilância, prevenção, investigação e adaptação capazes de antecipar riscos antes que estes se transformem em crises sanitárias.

A principal lição científica: As alterações climáticas não são apenas um problema ambiental. São também um problema de saúde pública, porque modificam determinantes ecológicos, sociais e económicos que condicionam o risco de doença.

Referências científicas

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Cosh, S., et al. (2024). Eco-anxiety and mental health: systematic review of psychological outcomes associated with climate change concerns. BMC Psychiatry, 24, 833.
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Mussafo, A. J. A., Cruz, R. F., Silveira, L. V. A., & Govone, J. S. (2026). Climatic and social health determinants of malaria incidence in Tete, Mozambique: Bayesian spatio-temporal modeling of routine data (2016–2022). Spatial and Spatio-temporal Epidemiology, 57, 100802.
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Searle, K. M., Earland, D. E., Francisco Bibe, A., Novela, A., Muhiro, V., & Ferrão, J. L. (2023). Long-lasting household damage from Cyclone Idai increases malaria risk in rural western Mozambique. Scientific Reports, 13, 21590.
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Symons, C., et al. (2026). Projected impacts of climate change and extreme weather on malaria burden in Africa. Nature, 651, 390–396.
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WHO — World Health Organization. (2025). World Malaria Report 2025. Geneva: World Health Organization.

WHO — World Health Organization. (2025). Dengue — global epidemiological situation and response. Geneva: World Health Organization.

WHO — World Health Organization. (2026). Climate change and health. Geneva: World Health Organization.

Nota sobre a interpretação científica: As citações foram distribuídas ao longo do artigo segundo o sistema autor-data. Estudos observacionais demonstram principalmente associações; revisões sistemáticas sintetizam evidências existentes; e modelos epidemiológicos e climáticos produzem estimativas e projecções dependentes dos dados e pressupostos utilizados. Os resultados apresentados não devem ser interpretados como prova de que todas as alterações observadas na incidência de doenças sejam causadas exclusivamente pelas alterações climáticas.
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